22 de abr. de 2015

Crônicas de ônibus

Não, todo esforço era inútil. 
Tentei, juro que tentei focar em outra coisa, 
Mas não. 
Era impossível controlar a imaginação.
Sonhei, de olhos abertos e bem abertos, 

No corpo despido 
Todo aquele movimento no compasso do que me faria entrar
Na voz, que muda, me convidava para tocar
E no sono que deixaria para o outro dia

Da noite que girava
Acesa, em brasa, vermelha em tudo o que existia
Em tudo isso,

Escondia com a mão minha boca que sorria

Não me interesso por esses teus olhos

Não me interesso por esses teus olhos

Quando no silêncio inexato
E na palidez ainda seca da cama
Sinto a premissa do beijo roubado
E a trépida mão que como um outro ser, ama.

Nesses momentos, teus olhos são inúteis
São matéria homogênea da escuridão
Nesses momentos quero abraçar-te 
Como quem rouba sem visão.

Inveja minha à parte

Teus olhos são uma noite  
E é dessa inveja que insisto em mentir de antemão.

26 de mar. de 2015

Luto.

Aquele funeral levou para as profundezas hadínicas não somente ele, mas eu também me senti enterrado e esquecido
Jogado para as ventosas mínimas e esfomeadas
Centenas delas
Rodeadas e me enamorando
Roçando aos poucos a epiderme
Minha, dele. 
É noite na terra, no fundo, no céu, em mim. 
Tudo chora, tudo me amortece a morte. 
É como se minha existência fátua fosse chama sobre água.
Não se sustenta.

22 de mar. de 2015

Último cigarro

A brasa que come o tabaco
Que transforma o tabaco em fumaça
E da fumaça, quietude, desgraça
Do amor que tive foi esse fogo sem chama
E morto, destruído em silêncio como foi criado
Esmagado, aborto pisado.
Cada gota de suor descido ou imaginado
É uma letra no papel, dos beijos frases
Das memórias imagens...
Nos teus silêncios sou teu
Enraizado e suprimido
E eu confidente invicto
Escuto calado do quanto tal quem é ruim
Ricos dizeres
Sentimentos mastigados
Turbulentas tempestades
Anéis de casados

Tudo o que deveria ser por mim! 

11 de mar. de 2015

2:00

Sei que confiar nos olhos avessos do leitor nunca é uma boa notícia.
Isso significa que os endireitados não servem, ou não existem. Chegando a uma única conclusão: Estou a sós no espaço com o teclado, o café que não tomo, a cadeira desconfortável e o sono que tenta me vencer a duras custas, mas me vence impreterivelmente às duas da manhã.
Não que tenha esquecido, só deixei de mencionar que a contagem está incompleta.
A matemática é um ciência exata, o conjunto vazio é mais um.
Se não cortasse o corpo, ou lembrasse dos tempos idos de infância poderia jurar que dentro dos dedos que tecem o texto, havia um. Ou pelo menos nunca me disseram que dói e é vermelho.

No final das contas, somos uma finidade de números, uma contagem esquecida, a inutilidade.
E eu, apressado e precoce, consegui o que as crianças querem, ficar adultos. Mas fui além, me tornei velho, tudo isso sem que a dimensão tempo sequer pensasse que estivesse acontecendo.
Uma alma velha, me disseram uma vez. Preferiria não ter escutado, foi para mim o veredicto final, eu fui reduzido à velhice prematura, fui enforcado aos cem no cordão umbilical.

Poderia dizer: nunca mais fui o mesmo. Mas a bem da verdade, sempre o fui.
Um velho, vazio e seco, magro como haveria de ser, com a vida por viver.

És saudável bonito, me dizem.
E eu lhes retruco, tenho alma vazia.
Se és vazio, hás de ser preenchido!
Sou completo e abarrotado de mim mesmo a primazia.

Ela olha para trás quando eu vou embora

E todas as vezes que ia embora e olhava nas olhadelas hollywoodianas o objeto de meu intenso desejar, vontade de vida e constante desespero, esperava com a ponta de esperança que resta das guerras internas, que olhasse de volta e em todas essas vezes, seus olhos, grandes e quase hipnóticos, me fitavam, me pediam a volta, o beijo que sobrou na minha boca.
Quando dessas vezes mencionada, o embrulho comumente das doenças do espírito, dessas que não se quer a cura, tomava-me o branco da face e deixava, como seria de se esperar, o vermelho incandescente. Gritava o silêncio no ar, sabia que amaldiçoado que sou, nunca e em nenhuma hipótese morderia o último pedaço.

Ela não é como hão de pensar
Só uma mulher
O desejo encarnado, revirado e adocicado
Tê-la pelo segundo que fosse
No beijo que desse
No toque em prece
Na vontade que viesse
Seria sorte.

Ela é a quintessência de qualquer vida e o motivo claro de qualquer morte.

9 de mar. de 2015

Nossas opiniões divergem em tantos aspectos quanto se é possível contar, mas ele me inspira e o admiro. 
Mesmo que ele não tenha feito nada, as circunstâncias me afastam para um lugar distante daquele que me abrigava quando tinha sono e eu era bebê.
É o mesmo clichê de sempre.
Os dois que só tem carinho no dia especialmente feito para compartilhar desse afeto, um dia que carrega o nome genérico, pai.
Mas hoje foi um dia especial. 

Eu o percebi. 
Não por algo que fez, mas por quem é.
Eu me orgulho do meu pa
i
Estou cansado.
O tempo me passou a perna - Não sou imortal.
Meu corpo reclama em suas tão altas e agudas dores
E a grosseria, arrogância, características tão suavemente eufemizadas nessas palavras, são só um verso do que escuto nos estalidos e tremores.
Quantas vezes imaginei tua barriga
Colada a minha
Sentindo um outro coração
Vê-la crescer como quem rega
E esperar sem pressa
Como os gêmeos serão?


Ah como eu odeio te querer,
Te sonhar a noite ou acordado
Planejar futuros certos
Novos ou velhos
Tudo ao erro fadado

6 de fev. de 2015

Saudade

Há quem reclame do quanto nossa língua portuguesa diminui de tamanho com suas abreviações de palavras diminutas e expõem uma opinião negativa a respeito de tal acontecimento.
Pelo contrário, eu vejo o nascer de uma linguagem regada de sensações e sentimentos, onde as letras, longe de serem apenas elementos básicos de uma tabela literária denotando fonemas, significam mais do que um correspondente no mundo físico, elas expressam o estado emocional do indivíduo no exato momento em que é transplantada para o papel.
Perceba que quando, num ato de coragem e desespero profundos, os dedos trêmulos compõem a sinfonia que a Saudade traz num teclado de computador, escreve-se na ausência das vogais como se o temor da recíproca falsa arrancasse-as fora: Sdd.

Lembranças de um vídeo

Mas esse teu riso entreaberto
Esses cabelos pingados
Me molhando o corpo quente
Teus lábios lava me tocando
Me roubando
Confundindo quem sou
Quem é a gente
É tudo sempre o mesmo jogo
Sejamos uma única vez francos


Ganha quem mais mente.

21 de jan. de 2015

Depressão

Ela é como uma onda. 
Quando lhe dá a chance de respirar, cobre de novo com o véu frio e preenche seus pulmões, te impede de fugir, levantar, sair.
E mais uma vez, as forças que pareciam esgotadas ressurgem e como num nascimento, a cabeça rompe a resistência do que existe acima.
Ah! o primeiro respirar!
Mas é ela quem lhe mantém, afinal, é o empuxo que faz o corpo boiar.
Quando finalmente, a praia lhe alcança, é a areia que lhe impede de andar, pesada que é, quente como o sol e brilhante demais para os olhos acostumados com a escuridão da zona abissal.
Depois de seco percebe que além do que a visão escrava lhe dava, com os olhos para baixo, existe o Sol em sua magnitude, imponência, e ao coitado, impotência.
É então que a água promete o alívio das costas nuas, o beijo molhado, o corpo tocado, o conforte dos ouvidos libertos, na ausência dos sons verdes, agudos. 
Nisso tudo o vai e vem como uma dança, a tentação de tê-la, e a dela em tentar, me fazer dançar.

20 de jan. de 2015

Esse teu riso
Sem siso
Desinibido
Me relaxa o rosto
Esse teu busto
Tua língua
Na minha
Não foge, que eu morro

E eu sempre enrusto
Sou quem fujo
Não me espera ir
Vai
Que não sei sentir(?)