27 de jun. de 2014

Delírio

Você entrou no meu quarto como qualquer um faz, examinando, experimentando o chão, investigando. Me reconheceu no meio de tantos tecidos e sorriu largamente. Eu quando percebi quem entrou sorri como se esperasse cortar minha cabeça ao meio, e bem poderia fazê-lo, mas sua presença era valiosa demais pra deixar que acontecesse.

Minhas costas doíam muito, mas ignorava esses simples detalhes passageiros. Até agora não sei bem se aquele abraço me doeu ou me afagou. O que importa é que você estava ali, do meu lado brincando sobre minha temperatura e eu febril não só pelas chagas que me acompanhavam, mas sem poder fazer mais do que lhe abraçar.

Adormecemos juntos, e quando acordei, levantei ante a luz que me incidia torturante nos olhos. Dessa vez eu sabia que a viagem que fez era para nunca mais. Triste, adormeci.

Quando acordei brusco, percebi que nem mesmo despedir-se você foi, tudo fora um sonho.

23 de jun. de 2014

Feche os olhos.

Repito o eco do meu eco
Toda vez que encosta nas paredes internas do meu crânio


Estremece o meu corpo a idéia
Incisa e afiada
Cortante e já dilacerada.


Toco o meu rosto
Encaro a minha beleza
Tocas o meu corpo,
Já incendiado,
Pensas que podes me pensar
Em meu pesar e me entender


Já é noite e me sentes
A boca, a cicatrizada marca, o pênis
Quente.
De olhos fechados,
Diferente do que pensas,
Me vês muito mais que completamente.

21 de jun. de 2014

Voçê

Depois de tanto me falar
Me achei mais rápido do que pensei.
Foi a sua distância,
Me distanciando de mim mesmo,
Que me proporcionou me ver
Caído
Fundido com o chão
Com um único olho parado, incrédulo.

De todas as coisas do mundo
De todas essas que lhe falar pudesse
Escolheria a que não está a meu alcance como opção
Escolheria ouvir de voçê o que lhe surgisse
Me empanturrasse com o que voçê me enchesse
Dentro de voçê, esquecido tudo, como muito faço e
Dormisse.

Tendo a Noite como dama
Um Ménage

Quando n'outro dia acordasse
Para que o destino não me seguisse
Que eu, então, esquecesse.

20 de jun. de 2014

Ao verme.

É esse cheiro irritante que todos nós buscamos, o fétido destino.
Provamos o prazer tocando na morte e
Sem perceber nos acostumamos com o verme que,
Sem pressa,
Nos ama num voyeurismo antropófilo.
E tal qual o mais valoroso e delicioso coito,
O verme entra,
Orgasmo da natureza,
E rompe o hímen presente em todo derivado carboxílico, orgânico.
Sádico, termina o jantar antropofágico,
Limpando a boca mergulhando num mar de terra fértil, desse eterno ciclo.
Não é a toa que mais sedutora que a morte,
Promíscua e libertina,
Só a vida, sombra e silhueta.

17/06/2014

11 de jun. de 2014

Um mensagem do celular

O cadáver do nosso amor, ou pelo menos do que sinto, jaz vivo e escondido, inerte, longe de olhares reveladores. Sendo o amor utópico e ideal que é, prefiro esconder dentro das minhas entranhas. Se for para ser diferente que seja da natureza platônica na qual me encontro, mas retiro tudo o que digo em nome da ação, rebaixando-o. Meu sorriso somente se revelará como amante quando notar que de mim és amante, mas quanto aos olhos, saberá no instante em que eu a vir. Largo e audível, confessando contra minha própria vontade. Entenda, já me sacrifiquei muito e não tenho mais pulsos para cortar ou costas para açoitar, sou a aura de mim mesmo, a essência ateia, a esperança incinerada, o modus operandi.

11/06/14 - 13:30

10 de jun. de 2014

Crônicas de ônibus: Um botão

Os mestres hipnotizam com os olhos, a voz, mas essa foi com o sorriso e os seios.
Muitas das vezes que me apaixono por uma mulher não é para sexo ou algo do tipo, é sempre por uma proposta erótica.
Erotismo não-intencional.
Os lábios provocam, curiosos, mas a resposta só é dada a eles tardiamente e é na conversa que o sorriso desponta pelo ganho, pela ignorância proposital, um fetiche próprio e coletivo dos humanos.
Qualquer detalhe excita. O botão da farda apertada que se desprendeu revela, aos interessados, a protuberância que a biologia explica, mas por demais complica. Ela não entende que basta por nos livros, Poesia?
E a selvageria que não existiu incita nos meio de todos o instinto primitivo de amor instantâneo e momentâneo. Nenhuma palavra. A escrita cuneiforme dita, fala e desenha o desenhado, o palpável e o atingível.
Um toque estridente, mas já conhecido denuncia: É a parada de ônibus.
As lágrimas evaporadas pelo calor não descrevem rotas, mas o rosto vermelho elas conseguem: "Foi bom conversar com você". Sem olhar para trás, o orgulho não o vira e diz para si mesmo :  "Deveria tê-la chamado para sair".

8 de jun. de 2014

Primo

Ser o número dois
É trair duas vezes 
É abdicar da própria noção 
De quem sois
E retirar o lacre 
De um laço qualquer.

É matar sem piedade

E ferir a um outro
De antemão.
Porém,
Somente essa
É a maneira de agir
E manter as coisas do coração

Mesmo em (álcool) receio

Me perdoe, mas comigo não.

Basta para mim

Ver-te feliz,
Sorrir o que não sorria comigo
Abraçar o que não sou eu,
Cheirar outra essência,
Beijar outra boca que não a minha
E ver-te,
Na maior das dores
Feliz com isso.


08/05/2014 - 13:02

Lutar

Estou de luto.
Morreu algo de mim em você
E esse cheiro
Forte, como muito do que aparento ser
Me repele para onde eu não possa ver
O que já fui,
O nós, o eu, o você

16/05/2014

Sem título

Acordei hoje perguntando para todos os seres inanimados ou não, porquê você não se acordou comigo. Olhei embaixo do travesseiro
Do lado da escrivaninha
Debaixo do chuveiro
Na sala do teto
Na cozinha.
Corri desesperado, ainda de pijama, por onde você pudesse ter passado.
Pulei muros, desafiei feras, escorreguei, me joguei, escalei, mas não lhe encontrava.
Tirei a camisa e continuei correndo, agora já não importava se estava longe de casa
Só queria matar o que me matava por dentro
Te abraçar e pegar de volta o que você levou de mim
Uma fatia considerável desse que sou eu
Mesmo sabendo que quando deixar-me de novo
Vais levar uma quantia maior que a anterior.
Até o momento que fores finalmente e completamente embora e eu não vou mais correr
Pois já terá levado de mim todo o meu ser.

7 de jun. de 2014

Em segredo

Uma dia eu vou sumir da face do mundo,
Derreter e me infiltrar nas mais profundas valas,
Encontrar o calor do magma e evaporar.
Vou correr nu e perder tudo o que tenho
Jogar aos ares enquanto me deleito na morte
Conversando com essa dona da vida, dentro dela.
E se não for pedir muito, que eu não tenha consciência
Que seja apenas deitar e desvanecer dormindo.
E aquilo que eu tenho, não mais terei,
Se nada me importa, que eu morra sem que saibam.
Tudo em segredo
No nosso primeiro e último encontro
Em segredo.