Falei com Deus hoje.
Não, não foi nada que pudesse ser percebido e eu fiquei realmente decepcionado com a falta de explosões.
Nada como hão de te falar: Em cima das nuvens, com grande pompa e glória; Estava de chinelos, uma túnica bem fora de moda e a barba por fazer.
Me olhou de cima a baixo, de baixo a cima, estalou a língua e disse em alto e bom tom: "Que queres?" .
Esperava, sinceramente, ter meus ouvidos estourados num banho de sangue, mas nada, respondi titubeando e tropeçando quando finalmente percebi quem estava ali: "Nada, só vivo".
Ele olhou para os lados apertando os olhos, franzindo a testa como se estivesse atravessando uma rua ao meio-dia numa cidade qualquer baseada no inferno, jogou os cabelos espessos para trás(aquilo deveria suar muito a testa, eram quase como dreads, mas mais finos) e disse inclinando o corpo para frente e falando mais baixo, quase sussurrando:"Que deves?"
Minha cabeça rodopiou. Girou entre pensamentos cada vez mais profundos e desconexos "O que eu devo? Para alguém? Eu sou alguém?". Coloquei a mão na testa como se para estacionar ou controlar as minhas reflexões, não adiantou, não devia nada financeiramente falando, mas deveria a alguém? Deveria fazer algo? Dever é sobre obrigação ou direito?
Agora ele estava com as mãos na cintura olhando uma serra, o trânsito lento, a túnica suja com uma marca de mão marrom. Olhou de supetão, virou a cabeça, me olhou fundo nos olhos. Ficou sério. Me deu medo.
Veio em minha direção e voltou a sorrir: "Que queres?"
Minha resposta dessa vez era diferente, comecei a formular, flexionar cada verbo da melhor maneira possível, mais clara, e continuei tentando explicar para mim mesmo como explicaria o que queria.
Enxugou a mão suja de novo na roupa e caminhou sem direção precisa, os braços começaram a evaporar, as pernas a pulverizar, percebi que Ele estava indo embora e gritei como podia: "Para onde vais!?"
Ele me respondeu com o que restava do rosto, sem olho e meia boca: "Lá."
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