Era uma viagem longa de bicicleta e eu já reclamava internamente. As nuvens estavam acinzentadas e pesadas, acumuladas de certo desespero, tudo estava frio e as frestas de sol que existiam eram para pessoas. Não me considerava um, eu era um amontoado de compostos orgânicos frágeis, já inertes se acontecentes ou não.
O vento, como nunca antes, me bloqueava. Nunca fora grande, sempre mirrado e pequeno, mas dessa vez ele me proibia de seguir, era um obstáculo. Pisei mais forte no pedal, minhas coxas doíam e a vida, pensava, era dura, rasgante, carrasca, um pedaço do universo que tem obrigação de escutar: Viva!
Desceu uma lágrima, duas, três. Não me aguentava quieto e tremia o queixo cambaleando a bicicleta.
Confundiu-me até se não era eu quem chorava a chuva que descia de não sei onde, de cima, de baixo, dos lados, de trás, de mim.
Forcei mais. Tinha raiva não sei o quê.
De repente, as coisas sumiram do meu campo de visão. A estrada que até então era de uma terra vermelha, vibrou-se dos raios solares, brilhou por assim dizer. Olhei para o lado e havia além de carros e pessoas sem rosto, esquecidas pelo tempo, flores, borboletas, pássaros que voavam pelo prazer de flutuar. Cores cada vez mais intensas, flutuações de pensamentos tolos porém bonitos, planos deixados para trás e que nunca retornariam, um passado inteiro como um mundo que ficava na estrada cinza que viajei. O açude velho, sempre tão podre em sua natureza, cintilava meu reflexo, das nuvens, do céu azul, da liberdade, de um calor.
Larguei um sorriso, com uma lágrima ainda no canto do olho.
O vento parou de me soprar tão intenso. A chuva não me rasgava mais atravessando meu corpo como agulhas, era um banho.
Soltei as mãos do guidom e abri os braços, respirei fundo. Não havia ninguém mais, só eu a estrada e o vento.
Era-me palpável e me sentia grande, majestoso, intenso.
Abri outro sorriso.
Tudo fora.
(Antares me falou, eu escrevi.)
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