30 de nov. de 2014

Frio

Ontem era tão frio por ser madrugada
Mas em mim a noite se estende
Uma escuridão com precedentes
Sem cura
Vazia como a fome
E trêmula entre meus dentes.

Onde a carne insaciável
É ordem de vida
Onde o mel tão falado
Não é doce
E o doce, amargo.

Em mim há o gélido
O abstrato traduzido em verso
A morte como remédio

E a quase-felicidade
Que me dão 

Do resto.

24 de nov. de 2014

Esquiz

Ele está atrás de mim
Uma segunda sombra
Que me roça
Mas sem corpo que o aguente
Sua respiração que me sufoca
E a escuridão que me envolve
Sempre rente
Onde não há dentes a sorrir
Em frequência
Mas a rasgar carne
Minha, sempre na preferência.

17 de nov. de 2014


O sol me parece cinza
As nuvens,
Negras como meu pulmão
E putrefato como cadáver
Amando sempre morto
Seja eu, meu desejo
Ou esse objeto de criação

Depois de uma morte

Arrastava além do mundo, eu mesmo
Com correntes ao tornozelo e o sangue derramando
Se era cheio de dentes, garras ou desespero
Mancava e gemia de dor com medo do que estava esperando


Enfim morri
Sem saber quem tinha vencido
E entre trevas em frente a um espelho me reconheci
Com rosto enlameado ferido e machucado
Mas achei o que não mudou
E com tudo de mim
Percebi
Renasci

10 de nov. de 2014

Das coisas que se cala

Como sempre quando irritado, cerrou os olhos.
Contou até vermelho e esperou mais um pouco.
Passou, inutilmente, a mão no cabelo sabendo que ele não mexeria e imaginou-se no auge da expressão do seu sentimento atual.

Se agachou e com as costas viradas para cima de uma vista ortogonal, gritou o mais alto que podia até a garganta se ferir, como se não bastasse o triste futuro que preparava jogou as mãos para trás e rasgou as costas com as unhas a ponto de quebrar algumas delas enquanto o sangue lavava o chão num raio grande o suficiente para confundir entre o que era sombra e o escuro-escarlate.
Levantou o rosto com os olhos também feridos desse auto-flagelamento, brancos de cegos que estavam, e enalteceu a dor erguendo-se o mais alto que podia enquanto tentava gritar e fingir que não sentia o gosto frio, mas quente, de sangue na boca.
Trincou as mãos enquanto olhava para cima, a pele do tronco toda desfeita em tecidos que pareciam ser exteriores a seu corpo, e a ponta de pé ainda continuava essa sina louca estralando o corpo inteiro forçando a se alongar.
Das costas feridas, a coluna que se protuberava erguia-se ainda mais do corpo e um corte finíssimo surgiu da exata mediana do corpo.
Abriu os braços como se esperando um abraço, o rosto dolorido e marcado parecia chorar com aqueles olhos doentes, a boca desfigurada e o corpo ensanguentado, por vezes até verde das pancadas que outrora dera em si mesmo. Enrugou, como bem fazia quando se emocionava, o rosto e envolveu os braços nele próprio grunhindo qualquer coisa de consolador. Nesse exato momento as costas cresceram numa velocidade tão rápida quanto qualquer aceleração múltipla de infinito e o corte acabou com o sofrimento que o cercava. Explodiu. Pedaços por todos os lugares, penso até que no ar ainda paira algo de Mateus, uma pensamento que seja, uma ideia, uma vontade de morte ou qualquer coisa que não nos cause vida.

5 de nov. de 2014

Da série: Noites insones.

Escondeu de si mesmo o ar que perdeu e precisava urgentemente resgatar. 
Suspirou e percebeu que não era aquele o oxigênio que precisava, e como não, se sentia quase morrer, desesperar os tímpanos num zumbido ensurdecedor, mas fitou pelos últimos segundos a boca por onde havia entrado a vida que encerrava a dele.
Não parecia mais o suspiro de morte, o último, por assim dizer.
Com as forças tão fracamente fingidas de fracas, mas ainda frágeis por serem dele, andou singelo e bonito, chegou frente ao corpo e descobriu que além de si ela tinha um nome.
Não aguentou muito tempo a conversar, faltava-lhe algo de humano, um pedaço andante que talvez fosse reencontrado naquela saliva. Talvez fosse realmente além da saliva, além das roupas e da claridade. 
Mas se conteve. 
Preferiu achar tal em tal tempo.

Pobre, fraco. Ela foi embora com a vida dele.