29 de mai. de 2014

Nova em folha.

Você tem o mesmo rosto
O mesmo cabelo
A mesma voz
Os mesmos olhos
Corpo, o mesmo
O mesmo nariz
As mesmas orelhas

E mesmo assim,
Não lhe reconheço mais
Lhe mataram,
Ou te suicidaram.
Te esmagaram e destroçaram
Te romperam e te corromperam

E eu morri.
Destruíram a casa, o lar,
O único lugar
Em que eu estava vivo
Ferido, mas vivo.

Me pergunto se ainda vago,
Se procuro abrigo
Ou se me mantenho nos escombros
Do lar abandonado

É certo que um dia estive,
Que vivi e devo viver
Sem qualquer lugar

De um mar isolado
Sem âncora ou porto

Só.


24/05/2014 - 12:48

28 de mai. de 2014

Concreto

Parece que a poesia é uma entidade e desce em você,
mas não toma o corpo e lhe manipula como faz à música das rimas,
ela desce em luz,
uma aura estonteante,
fazendo tudo convergir
ou conspirar ao teu favor
num simples sorriso.

Os cabelos molhados,
a vergonha de falar
e de escapar dos meus olhos
penteando para a direção que possa me bloquear.
Não faz isso, a vida é curta e nosso amor mais curto ainda.

Vem,
me ama,
me deseja,
me respira,
me mastiga enquanto é tempo
e temos tempo.

Vem,
me toca,
macia e simplesmente,
bilhões de vezes.

Para cada pessoa, eu lhe encontro nos meus próprios lábios num vocativo com o seu nome.
Mas o que eu quero é você na minha boca.
Calada.
Poema concreto.

26 de mai. de 2014

Fidelis

Vi uma frase hoje: "O que seus olhos diriam se falassem?". Sinceramente, eu não sei. Os únicos que conseguem escutar são os outros - Porções de eu mesmo espalhadas a falar, andar, correr, perseguir, ver e falar de novo. São projeções da minha personalidade em diversas áreas e exageradas a seu tipo com as mais variadas combinações, chegando, certas vezes, à loucura. Mas se conseguissem falar, creio que não conversariam mais do que o necessário, as vezes sem nem mesmo abrir a boca e mudas, continuarem como olhos. Acho que a maior beleza do olhar é a de admirar calados o que existe como infortúnio ou bonança, então se pudesse escolher entre ouvir meus olhos ou ver em silêncio eu escolheria enxergar o que escuto e deixar muda a minha visão, assim como ver o que eu sinto, seja amor, ódio, raiva ou compaixão, medo, rancor, desejo ou paixão. Só assim, eu acho que acreditaria no que há de diferente no meu peito e me deleitaria ao invés de me defender.


26/05/2014 - 01:23

24 de mai. de 2014

Saudade

Eu tenho saudade do tempo que achava fios de cabelo na minha roupa e eram sempre seus. 
Eu tenho saudade da agonia que passava ao me afogar nos cabelos sempre emaranhados e cheios de um castanho, e que sofria essa agonia porque era o preço a se pagar pelo teu corpo junto do meu.
Eu tenho saudade das discussões que nunca tivemos, das brigas que não aconteceram e de consertar o remendo sem estar quebrado.
Eu tenho saudade de como eu te olhava cansado, com sono, e queria deitar ou deitar-te no meu colo ou no teu.
Eu tenho saudade de como esse Sol imitava, sem êxito, os teus olhos. Primeiro por ser um, segundo por não estar em você.
Eu tenho saudade de ouvir meu coração bater, e saber que estava vivo.
Eu tenho saudade de como a sincronia lida em artigos e textos científicos se comprovava quando se igualavam os batimentos cardíacos.
Eu tenho saudade da maneira como você me beijava, sempre pela primeira vez, outras em segunda.
Eu tenho saudade de como conversava por horas e de como sentia falta se você atrasasse minutos para o nosso encontro diário.

Se me perguntar se estou, estive viciado em você, eu diria que não sei e é isso o que me para: uma dúvida. Duas dúvidas.

20 de mai. de 2014

Escrevo porque 2

É para mim datar, catalogar, conversar
comigo mesmo no futuro
dos meus instantes vividos
ou morridos,
mas tudo sobre o passado.
Sim. Aprendi a viajar no tempo.

Escrevo porque

Qualquer caneta
É veículo fluído
Para as entranhas do meu pensamento
Da minha escuridão,
São os meus segundos escritos
A espera do meu último pestanejar

19 de mai. de 2014

Flutuando

O desespero desistiu
A fumaça se cegou
Eu estou no meio de tudo
Eu sou a ordem do caos
Eu sou a ordem de caos
Já não defino qualquer coisa
Definho.
É o externo
Em volta do que não há
E o que espero
É o brilho maciço
De um único olhar.

19/05/2014

9 de mai. de 2014

O que sinto

Não sei mais o que eu sinto
Ou devo sentir
Não é muito mais do que Nada
Mas sangra o limite do Tudo
E comove as paredes
Disso que vês como rosto.
O mundo inteiro é maior
É pesado e barulhento
Sobe nas minhas costas
Me chicoteia
Me caleja
Me esfaqueia
Me perde
Perco

Onde estou?




09/05/2014 - 10:34 a.m