11 de ago. de 2014

Branca

O dia hoje estava lavado de chuva nas construções mal pintadas, nos telhados ainda não pagos, nos sujos estacionamentos, no óleo grosso que escorria dos carros parados, pacatos como essa cidade. Havia um pouco de timidez nas crianças que olhavam esperançosas para o céu e pensavam que o sertão morresse de seca se fosse preciso para que pudessem mais uma vez serem livres nas ruas de mentiras e brincadeiras. Por coincidência, um dos garotos se mantinha agarrado a uma bola desgastada e riscada, remendada das vezes que se rasgou no muro da vizinha.
Essa vizinha, assistia televisão quando viu um comercial de um dos canais, desses que nunca se assiste, nunca se sabe o nome e servem nada mais como obstáculo entre um canal e outro de interesse. Falava sobre o destino possível da humanidade se o mundo continuasse a ser o que era, que todos éramos condenados e que tal igreja (nunca se decora isso) era a salvação para a maldade humana. Ela parou um tempo, pensando porque razão estava assistindo toda aquela bobagem, mas refletiu sobre o que disse. Decidiu visitar a igreja. Não que tivesse medo dos dizeres cuspidos, mas lhe interessou por um detalhe na camisa azul, polo, que carregava, seria uma mancha de sorvete? Um marca na lente da câmera? Não, isso não poderia ser, mas ficou curiosa e decidiu sair.
Vestiu uma roupa, um vestido de renda que fazia dez anos que esperava uma oportunidade para usar, as oportunidades apareciam, mas para ela nunca eram boas o suficiente para gastar aquela roupa. Olhou a maquiagem em cima do criado-mudo e percebeu que a poeira que acumulava era suficiente para espalhar pela casa e ainda achar muita, e também pensou o quão cruel era aquela palavra, mas afastou esses pensamentos da cabeça.
Branca, nunca saia de casa, não se sabe bem se por vidência ou coincidência a mãe lhe deu esse nome, mas o usava com orgulho em suas assinaturas, ou cartas - Nunca falava com ninguém.
Aquele era um dia especial, era a lembrança palpável de quem um dia a ensinou como adivinhar e conhecer as pessoas, não porque realmente fosse uma data prescrita, mas a iniciativa fazia parte de um conjunto de pensamentos que a torturavam nesses últimos tempos. Tempos, pois não sabia bem se semanas, meses, anos. Essas coisas de amor são sempre tão atemporais que os minutos rolavam horas a fio as vezes e por vontade própria.
Quando estava saindo de casa percebeu que o vestido era amarelado, mas agora não sabia mais se era por causa do tempo que tinha passado, se eram os produtos de limpeza que o estragaram, ou se sempre fora assim. Não importava, ninguém naquele lugar ou qualquer outro havia visto ela com aquela roupa ou mesmo ela, era, então, novíssima em folha.
Saturada, pelo nada que a preenchia, fora uma decisão firme e incisa, grande o suficiente para fazê-la parar na frente da calçada no primeiro pé na sarjeta que colocou.
"Porquê?" - Pensava, esperando uma resposta do céu, caída e talvez até doce.
O céu era cinza como os muros da casa dela, de vez em quando um feixe de alguma luz indecisa, e as gotas pareciam desviar um caminho para o carro. Teria gasolina?
As linhas da calçada pareciam tão distantes, ela tinha obrigatoriamente que nunca tocar nelas, mas se estavam tão distantes, como poderia chegar no próximo campo? Pular essas linhas?
Colocou a mão na cabeça, o rosto vermelho, uma dor de cabeça infernal, estava presa, alguém havia prendido, não conseguia se mover, estava sedada? Tremeu como se com frio, mordeu o polegar, roxeou, sangrou. Tentou gritar, mas ficou com medo das pessoas que pudessem vir, seriam mais de uma, era inaceitável, amedrontador, custaria voltar a si, perceber que elas não a queriam para si, ou pedaços dela. Era o segundo passo e ela não estava nem perto do outro lado da rua. Desceu a mão da cabeça, vagarosamente, como se cogitasse a cabeça rolar se não a apertasse com tanta força. Apertou os olhos, coçou o nariz, apertou um beliscão nos lábios e virou a cabeça de olhos fechados para aquela vista do céu. Se tivesse com quem, até tomaria uma banho de chuva, eram denunciosas aquelas Cummulus.
Mais um motivo para o dia ser especial. Quem lhe ensinara aquelas coisas de nuvens, além das que saiam da boca dela? Riu sozinha desses risos de desespero, de desafogar-se, de que vem molhado e realmente veio.
Enxugou a lágrima com a borda da gola da camisa e virou prendendo o choro de frente para a platéia imaginária que ela criou.
Abriu a porta e sem olhar para trás, fechou atrás de si.

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