Vi um urubu, em sua recolhida solidão. Andava cabisbaixo, corcunda à procurar restos sobreviventes.
Ainda bípede, um homem imitava-o. As mãos para trás tal qual asas prontas para recuar, mas esse não retrocedia, avançava as suas no que visse de opaco ou brilhante, e metia com infinita voracidade na boca. Não sentia gosto, não havia tempo, engulia como se fizesse o papel da saliva. Andava desviando, sem olhar, os cacos de vidro ou espinho, talvez nem mesmo ele soubesse que o pé, impenetrável, fazia esse papel.
Me assustei. Nunca vira tamanha aptidão para atuar.
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