23 de dez. de 2011

ainda sem titulo - 2° Capítulo

Poucas coisas




Eles acabaram por me transferir um medo sem sentido, que me fez não agir por um curto período de tempo, até porque o próprio barco estava me substituindo como capitão e fazendo o trabalho dos marujos, içando as velas, dando nós nas novas cordas, empurrando caixas e organizando tudo à nossa volta. Vento me acariciou os cabelos como se já estivesse fisicamente personificado, com dedos, calor próprio, e uma vida.

Foi nesse instante que percebi o sangue me invadir as bochechas, e fazer as cordas vocais se chocarem entre suspiros e expulsões de ar numa gargalhada contagiosa, que infectou alguns outros sorrisos tímidos dos camaradas à bordo dessa viagem sem rumo conhecido, o vento parecia que nos empurrava de propósito na direção contraria a do barco cada vez mais forte, quase derrubando , e nos enchia de pompa, instigava-nos a morrer de novo só para ter a mesma nova sensação de cada instante.

Como não tinha o controle da situação e não sabia do que se passava, pra onde íamos, ou o que estava nos levando. Me surpreendi  com o impacto que desacelerou o barco e cortou a minha testa numa quina imprevista, me levantei ainda cambaleando os olhos e as pernas em movimentos assíncronos e quando me restabeleci, diante de mim subiu aos meus pés um lugar onde o sol é amarelo-esverdeado, e a areia com ouro granulado e durante a minha nova caminhada, brincava com ela enquanto andava, massageando, e dormindo em mim, como uma criança cansada de seus brinquedos, andei em linha reta sem olhar pra trás, mas com receio da minha atuação, -- Eles são burros, pensava, para me satisfazer, da idiotice de não ouvir nem a mim nem eles.

Continuei a andar e andar, até meus pés sangrarem, a fome e o cansaço me derrubarem num demorado golpe de sacrifício voluntário de joelhos. Me levantei sem forças até pra respirar, permanecendo imóvel e sentido talvez num possível delírio, a areia se mover em círculos sob meus pés, repetindo a sensação obtida por mim. Ela começou a subir minhas pernas fazendo cócegas e enlanguescendo a abertura bucal, fazendo arranhões engraçados, e nesse embalo medonho os riscos se firmaram e doía cada vez mais, entrando, rasgando, e cortando todo obstáculo pertencente à meu corpo, sentindo todos os grãos possíveis e mais um pouco subindo meu corpo, substituindo meus orifícios, e poros por entupimentos. Chegando ao pescoço, esse ouro desceu a garganta fazendo o dobro de estrago que ele fez em todo o resto do meu corpo, e como num pulo em um abismo volumoso a sensação mais estranha que já me aconteceu, uma de choro invertido vagaroso, em que não sentia dores, apenas angustia, e lembranças tristes cortando o que não pode ser visto.

Fechei meus olhos com dificuldade, pois os grãos empoeirados já o dominavam, e quando querendo a morte abri os olhos, eu vi, pessoas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário