Capítulo 1: Morte
A noite hachurada de gotas transvestidas em agulhas de prata me perseguem como à um ímã, torturando-me a epiderme. Se fosse dia, estaria navegando em trevas, mas é noite e a gélida madrugada abençoa a chuva transformando-a em meu carrasco. O enjoo tonto dos meus intestinos me lembra as ondas na praia.
Vento não me ajuda e algo finda com a maldição no abalar das estruturas do barco que acabam por se partir, e para não ver o desastre terminar ergo da cintura uma pistola com uma bala, uma bala marcada que se torna parte de mim, o estresse de adrenalina me permite sentir cada uma das etapas da minha morte. A bala cair do meu olho devido a minha posição semi-fetal e em seguida o tintilar doce na mesa de zinco, cores vivas em gradiente disforme iam substituindo as velhas, o ar entra purificado nos meus alvéolos, mas em contrapartida os meus músculos e nervos não correspondem as minhas ordens, até o arco reflexo sumiu. No compasso das trevas se rendendo os meus movimentos iam se restabelecendo, e num arrepio frio de todos os meus pelos vejo ensanguentado no chão meu próprio rosto, caído junto do meu corpo. Não senti medo ao me ver naquele estado, mas ainda era meu corpo e eu continuava com a ânsia de rever meus filhos que há tempos não os via. Porém estava morto e todos os meus desejos estavam cessados pela eternidade.
O apego ao material corpóreo que ainda me corrompia em desatinos e desesperos reiniciou a cachoeira de tormentos quando vi o meu outro eu no chão a se contorcer e soar estranhos grunhidos como se pudesse sentir dor. O suor que escorria do rosto numa alquimia divina se transformava em vapor, e montando a nova realidade entre letras, paredes, tijolos e tintas. Aos poucos meus marujos iam sendo "construídos", e com o susto montado nos seus rostos eles vinham em minha direção com a suas descritíveis caras de pergunta.